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Quem escreve o texto alternativo acessível? (parte 2)

Quem escreve o texto alternativo acessível? (parte 2)

Spice-Girls

Ou o momento em que percebemos que o ChatGPT não nasceu nos anos 1990

Afinal, a quem cabe a tarefa de escrever o texto alternativo? E quem vai fazê-lo para que esse conteúdo seja acessível a todos os utilizadores que dependem de meios como leitores de ecrã para aceder à informação?

A resposta pode variar, sobretudo se pensarmos no que quer dizer escrever um bom texto alternativo.

  • Developers: parece ser a resposta mais óbvia, confiando que seja a equipa de desenvolvimento que, entre uma e outra linha de código, produz uma descrição rápida para as imagens da página e cuida dos requisitos de acessibilidade.
  • Editores de conteúdo: tal como os developers, podem ser os content managers os últimos a tocar no conteúdo antes da publicação. Muitos programas de edição têm mesmo campos preparados para incluir o texto alternativo que vai acompanhar as imagens carregadas.
  • Especialistas de SEO: estarão de certeza preparados para escrever alt text eficaz para ganhar mais uns pontos na classificação da página nos motores de busca.

E se nenhuma destas pessoas tiver de escrever o alt text?

São várias as plataformas que automatizaram o preenchimento do campo do texto alternativo. O Instagram, assim como o Facebook, recorre a inteligência artificial para gerar uma descrição alternativa quando os utilizadores não escrevem este conteúdo.

Por que não ter a ajuda destes sistemas?

No seu projeto #CripRitual, que deu origem a uma exposição, Alex Haagaard mostrou as limitações da inteligência artificial para produzir texto alternativo.

A experiência passava por testar como a rede social descrevia um conjunto de obras de arte. No caso da Mona Lisa, de Da Vinci, o Instagram usou um texto alternativo que dizia apenas que a imagem podia ter uma ou mais pessoas.

Experiência de Alex Haagaard sobre como o texto alternativo automático descreve o quadro Mona Lisa

O problema destas ferramentas para gerar alt text automático é que não têm a capacidade de ler a imagem no seu contexto. Podem identificar nela alguns rostos, mas não conseguem interpretar quem são as pessoas que ali estão, quem eram nem o que fazem, e isso torna a experiência de leitura irrelevante para os utilizadores.

ChatGPT, Spice Girls e búfalos

Ok, a inteligência artificial evoluiu muito desde aquela experiência com obras de arte. Por isso, testei com a inteligência artificial como fazer o texto alternativo de uma fotografia das Spice Girls.

Dei ao ChatGPT o link direto dessa imagem, num artigo da Vanity Fair.

Para começar, a ferramenta escreveu um texto alternativo sobre o facto de as Spice Girls estarem a atuar em Londres, num concerto da digressão que fizeram no seu regresso. Descreve ainda como as 5 Spice estão vestidas com roupas coloridas, em frente a um ecrã com o logo da banda.

Pergunto se não é relevante dizer algo sobre os sapatos. É que o artigo da Vanity Fair fala sobre o regresso dos sapatos plataforma, que a banda inglesa popularizou.

Faltava contexto à 1.ª versão do alt text automático. Mas o ChatGPT redime-se e acrescenta alguns detalhes:

  • que os sapatos plataforma eram imagem de marca das Spice Girls
  • e que isso era visível naquela fotografia de um concerto em Buffalo, em Londres.

Quem nasceu nos anos 1990, talvez tenha usado uma conhecida marca de sapatos plataforma chamada Buffalo London, que acrescentavam uns bons 6 centímetros de altura.

A informação que o ChatGPT foi buscar para o alt text passava por aqui: Buffalo era a marca dos sapatos, não uma localidade em Londres.

De resto, a fotografia não mostrava um concerto, mas sim os elementos da banda num sofá. Na legenda da fotografia, lê-se que estão em Bali, em 1997 — não num concerto da sua digressão de regresso.

A fotografia publicada na Vanity Fair sobre o regresso da moda dos sapatos plataforma, imagem de marca das Spice Girls

UX writers salvam o dia

Quem, melhor do que as inteligências artificiais, para escrever um bom alt text?

UX writers têm, no seu kit de ferramentas, os conhecimentos essenciais para tornar os textos alternativos acessíveis para todos os utilizadores. Conhecem de cor as recomendações de linguagem clara e têm experiência a escrever microcopy.

Têm também a prática de saber negociar com outros elementos da equipa para combinar as suas sugestões com requisitos técnicos — e, talvez, aquela keyword de que SEO precisa até seja útil para descrever a imagem. Podem coordenar-se com a equipa de desenvolvimento para criar um documento útil com todas as linhas de alt text que devem ser inseridas no código.

Nós, UX writers, passamos muito do nosso tempo a imaginar como é que as palavras que escolhemos vão ser entendidas e que impacto vão ter na experiência dos utilizadores. Basta alargar esse horizonte da mensagem ao meio e antecipar como essas palavras vão ser lidas e ouvidas.

Na verdade, trata-se de cuidar de todos os lados da experiência — daquele que se vê e daquele que é invisível para a maioria dos utilizadores. Se essa ainda não é uma preocupação permanente, deve tornar-se parte do trabalho de todos os UX writers.

Parte 1: Escrever texto alternativo acessível em 10 dicas